SAÚDE: O DIA É DOS NAMORADOS E VOCÊ, COMO ESTÁ?

Na coluna SAÚDE deste domingo, a um mês do Dia dos Namorados, Deborah Braga fala sobre a febre dos aplicativos de relacionamento e as suas consequências quando o uso se torna vício.

Do Dia dos Namorados à depressão

Vício por aplicativos: Como a pressão por relacionamentos pode ser prejudicial à saúde das pessoas

Obra do artista de rua britânico Banksy. Foto: banksy.co.uk.

O comércio no Dia dos Namorados

A exatamente um mês do Dia dos Namorados, já encontramos as lojas enfeitadas e assistimos as propagandas nas mídias. Por todos os lados: “Feliz Dia dos Namorados!” e as famigeradas perguntas: “O que você vai dar para o seu namorado?” ou “O que você vai fazer no Dia dos Namorados?”. E viva o comércio! Um viva para o comércio que pode fazer nos sentirmos, nesse dia, de tantas formas diferentes:

  • Alegre: se você sente que é um dia especial e que vai ganhar presente
  • Angustiado: se o seu namorado é difícil de agradar e mais uma vez você não sabe como presenteá-lo
  • Angustiado: se você não tem namorado, mas considera que é um dia especial e acha que precisa encontrar um imediatamente, nem que seja de aluguel, só para dar uma saidinha nesse dia tão romântico
  • Triste: se você não tem namorado, mas considera que é um dia especial e acha que precisa encontrar um, mas à moda romântica e tradicional
  • Sinceramente apático: se você não tem namorado e considera esse como só mais um dia
  • Forçadamente apático: se você não tem namorado e considera esse como só mais um dia, mas, mesmo assim, sente uma ponta de pressão

A pressão da sociedade

A pressão para se estar em um relacionamento não vem só do comércio. Na verdade, o comércio apenas reflete as necessidades e cobranças da sociedade. Essa pressão está em todas as esferas sociais, religiosas e de gênero. Não importa. O fato é que todo mundo quer lhe ver namorando.

Solidão pode ser uma escolha

As pessoas querem lhe ver namorando porque a sociedade vê a solidão como uma tristeza, uma melancolia, uma tragédia. E falam com você em um tom de pesar, perguntando: “Mas por que um cara bacana como você está solteiro?”.

Essa necessidade de se controlar a vida amorosa alheia tem trazido uma angústia para as pessoas que escolhem estar sozinhas. Queiram elas ficar sozinhas apenas por um período definido, por um período até encontrar ocasionalmente aquela cara metade ou, até mesmo, definitivamente. O resultado disso é que as pessoas passam a ter dúvidas sobre as suas próprias escolhas e acabam tomando decisões impulsivas e precipitadas.

Sobre as estatísticas dos aplicativos de relacionamento

A matéria publicada em março deste ano pela Men’s Health Addicted to Dating Apps? You’ll Never Find Love, Suggests New Research fala sobre um estudo realizado com usuários de aplicativos de relacionamento no Reino Unido. A pesquisa apontou que:

  • Quase 30% dos usuários passam 7 horas por semana procurando em aplicativos pessoas para se relacionarem
  • 14% passam 14 horas
  • A liderança no consumo dos aplicativos é dos homens
  • 40% dos usuários homens baixaram 3 ou mais aplicativos por vez, e, desses, 10% admitiram usar mais de 5 ao mesmo tempo

O artigo publicado em abril deste ano pela Sky News Dating apps spending rises 60% thanks to swipe-addicted Brits mostra um aumento de 60% nos gastos em aplicativos de relacionamento entre 2017 e 2018 no Reino Unido.

A reportagem também cita dados coletados pelo App Annie, que apontam que as pessoas gastam mais tempo em aplicativos de relacionamento do que com entretenimentos como ver filmes e ouvir músicas. É mais tempo gasto no Tinder do que no Netflix e no Spotify.

O vício pelos aplicativos

Os aplicativos de relacionamento, hoje, são considerados requisitos de existência para os que não têm namorado ou namorada. Não só no Reino Unido. Isso é um vírus globalizado. E que, segundo os estudos, trazem muitos mais malefícios do que benefícios.

Consequências do vício

Em maio do ano passado, a CNN falou sobre aplicativos de relacionamento em Online dating lowers self-esteem and increases depression, studies say. De acordo com o artigo, o Tinder afirma que o aplicativo gera 1,6 bilhão de “seleções” por dia, levando a 1,5 milhão de encontros por semana. Uma média de um a dois encontros por usuário.

Obra do artista de rua britânico Banksy. Foto: Desconhecido.

A matéria também apresentou dados colhidos pelo Journal Body Image. Cerca de 1300 estudantes foram questionados quanto ao uso do Tinder, quanto à forma como vêem seus corpos e quanto a sua auto-estima. Os resultados mostraram que os usuários do Tinder pareceram ter auto-estima mais baixa e reportaram estarem menos satisfeitos com os seus corpos, quando comparados com os não usuários.

O fato é que nos aplicativos você é apresentado como em um cardápio. E é um cardápio cheio de opções. A rejeição é constante e as pessoas acabam entrando em um ciclo vicioso: se sentem rejeitadas e seguem em busca de alguém que não as rejeite.

No mesmo artigo, um estudo da Match.com revelou que um em cada seis solteiros se declararam viciados no processo de procura por um encontro.

O professor de Psicologia da Universidade de Illinois, Alejandro Lleras, disse “As pessoas que se descreveram como tendo comportamento realmente viciante em relação à internet e aos telefones celulares tiveram uma pontuação muito maior nas escalas de depressão e ansiedade”. 

A importância dos estudos

A arte da conquista é muito mais complexa do que a gente imagina. Ela envolve hormônios como a dopamina e a ocitocina.

  • Dopamina: responsável pela motivação e por um sistema de recompensa
  • Ocitocina: desenvolve a confiança e a empatia, ela é conhecida como o hormônio do amor

“Os vícios por drogas e por certos comportamentos são fisiologicamente parecidos, ou seja, ocorrem no mesmo lugar do cérebro e ambos se sustentam em uma dependência bioquímica”, afirma o biólogo e pesquisador Luiz Gustavo de Almeida em O que drogas, games e redes sociais têm em comum, na Revista Saúde.

Os resultados de todos esses estudos devem servir de alerta para a sociedade. Partir para um relacionamento, agora, pode não ser tão interessante assim. O importante é estarmos conscientes das nossas escolhas e escolhermos o que nos faz bem de fato.

 

Autoria: Deborah Braga

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