DICA DE LIVRO: LIÇÕES – O MEU CAMINHO PARA UMA VIDA COM SENTIDO, DE GISELE BUNDCHEN

A coluna DICA DE LIVROS desta quarta-feira traz Gisele Bündchen e as revelações surpreendentes de sua trajetória pessoal e profissional no livro Lições – O meu caminho para uma vida com sentido. Confira os detalhes do livro na entrevista de Gisele ao Observador.

“Cheguei a questionar se queria mesmo continuar a viver”. As revelações inesperadas do novo livro de Gisele Bündchen

De Olívia Palito a bomba brasileira, Gisele Bündchen é o rosto e o corpo de uma era. No livro que agora chega a Portugal, faz revelações surpreendentes sobre um trajeto de luzes e sombras.

Gisele Bündchen foi o rosto e o corpo de uma era. Substituiu as modelos brancas e sem formas e trouxe de volta as curvas que as supermodelos dos anos 1980 e 1990 eternizaram. Uma ascensão improvável quando olhamos para as suas origens. É uma de seis irmãs nascidas e criadas no interior do sul do Brasil. Aos 14 anos, cortou o cordão umbilical e mudou-se, sozinha, para São Paulo. Desde então, nunca mais parou de correr o mundo. De Olívia Palito a brazilian bombshell, a viragem do milénio foi o momento da sua consagração. Nos anos seguintes, conquistou lugar cativo na lista das manequins mais bem pagas do mundo.

Hoje, aos 38 anos, casada com uma estrela de futebol americano e com dois filhos, vive e trabalha longe dos holofotes das passerelles, dedicada, sobretudo, a causas ambientais. Um caminho feito de boas e de más decisões, todas elas partilhadas no livro Lições — O Meu Caminho Para uma Vida Com Sentido, agora editado em Portugal. Gisele é, na verdade, a personificação do sonho improvável que se torna realidade. E, ao fim de quase 250 páginas, eis as revelações mais surpreendentes.

“Foi a minha primeira viagem de avião”

Gisele Caroline Bündchen nasceu a 20 de julho de 1980. Cresceu em Horizontina, uma pequena cidade do estado brasileiro de Rio Grande do Sul, a uma hora da fronteira com a Argentina. Aos 13 anos, a mãe inscreveu-a num curso para manequins, com o objetivo de corrigir a má postura. Seguir uma carreira na moda nunca foi um sonho — imaginava-se como jogadora profissional de voleibol ou como veterinária. Mas foi numa excursão a Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro — 27 horas de viagem num autocarro — que chamou a atenção de um caça-talentos da Elite Model Management. Em 1994, ficou em segundo lugar no Elite Look of the Year. A boa classificação na competição fê-la voar até Ibiza, para participar na etapa mundial do concurso. “Foi a minha primeira viagem de avião, a primeira vez que saí do Brasil. E acabei por ficar entre as dez finalistas. Tudo estava a acontecer muito, muito rápido”, escreve logo nas primeiras páginas.

Em 2016, Gisele desfilou ao longo de 120 metros (e ao som de Tom Jobim) na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro © Clive Brunskill/Getty Images

“Cheguei a ouvir os meus pais a discutirem por causa de dinheiro”

Embora nunca tenha sonhado em ser manequim, Bündchen percebeu depressa que esse caminho poderia trazer algum conforto financeiro, a ela e à família. Filha de um professor e de uma funcionária bancária, ambos com ascendência alemã, tem cinco irmãs, incluindo uma gémea, que nasceu minutos mais tarde. “Em criança, cheguei a ouvir os meus pais a discutirem por causa de dinheiro. Achei que, se tentasse ser modelo e até me tornasse boa nisso, poderia ajudar a nossa família”, conta. No livro, fala numa “família trabalhadora de classe média”, numa mãe “batalhadora” e num pai “empreendedor”, mas também numa infância passada em contacto com a natureza. No quintal de casa, tinha árvores de fruto — de abacates, pêssegos e bergamotas a pitangas, goiabas e papaias. Depois, havia a casa da avó materna, que, segundo Gisele, “tirava o leite das vacas, cultivava quase tudo o que comia e fazia as suas próprias roupas”.

“Ficava quase sempre encarregada de limpar a casa de banho”

Num agregado familiar com oito pessoas, das quais seis eram crianças, a distribuição de tarefas domésticas era imperativa. “A minha mãe corria de um lado para o outro, esforçando-se ao máximo para cuidar de todas nós. Todos os dias, às seis horas da manhã, ela acordava e preparava-nos para o pequeno-almoço leite batido com abacate, banana ou maçã e um pouco de açúcar ou, às vezes, fazia torradas, que é como no Rio Grande do Sul chamamos a tosta mista […] Nos fins de semana, ela acordava ainda mais cedo para lavar as nossas roupa, preparar a comida e congelar as refeições para a semana seguinte”, relata.

Recorda também os momentos em que acordava a meio da noite e encontrava a mãe a trabalhar. A casa onde vivia tinha três quartos e duas casas de banho e cada filha tinha uma tarefa atribuída, que vinha antes de qualquer brincadeira. “Eu ficava quase sempre encarregada de limpar a casa de banho e, geralmente, passava muito tempo a esfregar o espaço entre os ladrilhos com uma escova de dentes até tudo ficar tão limpo que dava para comer chão”, escreve. Aos 8 anos, lembra-se de trocar as fraldas à irmã mais nova e de ajudar as mais velhas a fritar pastéis. “(…) éramos crianças a criar outras crianças”, admite no livro. “Boa menina” era, invariavelmente, o elogio — ou o “superelogio”, como assinala — final e uma recompensa mais do que suficiente para qualquer uma das seis irmãs. No caso de Gisele, o gosto pelas limpezas dura até hoje.

“Gozavam comigo por causa da minha altura, da minha magreza e da minha aparência”

Quem diria que Gisele já foi um patinho feio? Muito alta, magra e de tez pálida, sobretudo tendo em conta a fisionomia tipicamente brasileira, na escola, esteve longe de ser uma miúda popular. O físico peculiar valeu-lhe várias alcunhas: Oli, uma alusão à personagem Olívia Palito, saracura, uma ave brasileira que descreve como tendo olhos pequenas e pernas longas e finas, e camarão, dada a vermelhidão que rapidamente ganhava na pele, principalmente depois de um jogo de voleibol. “[…] aos 14 anos, eu era maria-rapaz — magra, musculosa e de aparência saudável, com seios do tamanho normal — mas veio a puberdade. Dois anos depois, o meu peito ficou bem maior, o que fez com que eu me destacasse de novo e me sentisse ainda mais envergonhada, principalmente numa época em que as modelos pálidas e de aparência andrógina conseguiam os trabalhos”, descreve.

Com quase 1,80 metros e 52 quilos, em meados dos anos 1990, a silhueta de Gisele era muito pouco consensual. Recorda que, em provas, as peças não eram feitas para corpos como o seu, bem como o dia em que entrou na sala de aula e deu de caras com um cartaz com um esqueleto desenhado. “Alguém viu a li?”, escreveram os colegas. “Senti-me humilhada”, refere. “Na escola, os meus colegas gozavam comigo por causa da minha altura, da minha magreza e da minha aparência. Por maior que seja o seu sucesso na vida adulta, não acredito que isso seja capaz de mudar completamente o modo como se via na infância”, escreve. De volta aos primeiros passos no mundo da moda, era frequente Bündchen sentir-se desajeitada e constrangida, sempre que alguém dizia que os seus “olhos eram pequenos demais” e o “nariz e os seios grandes demais”. Por vezes, os comentários eram feitos como se Gisele não estivesse lá.

“Durante 23 anos, também fui uma imagem sem voz”

Oriunda de um Brasil profundo e de uma família da classe trabalhadora, Gisele Bündchen desbravou o mundo da moda sozinha, por sua conta e risco. No livro, reconhece que o quão cruel a indústria pode ser para as mulheres — para as que trabalham dento dela e não só. “Somos todas bombardeadas com imagens de como deveria ser a nossa aparência ou de como deveríamos comportar-nos […] Durante 23 anos, também fui uma imagem sem voz”, escreve. “[…] uma das primeiras coisas que descobri foi como esta [a moda] podia ser superficial. Por muito tempo na minha carreira de modelo, senti-me dividida e culpada. Trabalhar como modelo nunca foi a minha paixão nem a minha identidade”, prossegue. Com o tempo aprendeu a construir uma personagem, uma mulher camaleónica, capaz de se moldar às diferentes fantasias de designers, stylists, fotógrafos e produtores.

Gisele num desfile da Victoria’s Secret, em novembro de 2006 © GABRIEL BOUYS/AFP/Getty Images

“A primeira coisa que faço de é agarrar num frasco de óleo de coco e bochechar”

Durante anos, muitos têm cobiçado os hábitos diários desta manequim de topo, da alimentação ao exercício, dos rituais de beleza à dinâmica familiar. Pois bem, normalmente, Gisele acorda entre as cinco e as seis da manhã, com o leve som do oceano a ecoar a partir do telemóvel. Espreguiça-se, alonga e vai até à casa de banho para um ritual, no mínimo, inusitado. “A primeira coisa que faço de manhã é agarrar num frasco de óleo de coco na casa de banho para fazer oil pulling, ou ‘terapia do bochechar com óleo’”, partilha. Diz que limpa as impurezas da boca, desintoxica os dentes e as gengivas e faz bem à saúde intestinal. O s cinco minutos de meditação são indispensáveis, prática que adotou em 2003 e que perpetua como segredo para “manter um equilíbrio interior durante o resto dia”.

Num dia normal, há ainda tempo para exercício físico, finalizado com um copo de água morna com o sumo de meio limão. Depois de servir o pequeno almoço dos dois filhos, toma o seu, quase sempre à base dos restos deixados pelos mais pequenos e de um sumo verde. Depois de deixar as crianças na escola, vai para o escritório. Chama-lhe “Santuário” e fica do outro lado do relvado de casa. O telemóvel fica sem som durante todo o dia — a manequim admite não gostar de falar ao telefone. O almoço? Sopa ou uma salada fresca.

“Quando tirei a mochila das costas para agarrar a carteira, ela tinha desaparecido”

Com 14 anos, mudou-se para São Paulo, para um apartamento arranjado pela agência e partilhado por outras jovens manequins. Na carteira, levava 50 reais para apanhar um táxi do terminal rodoviário até casa. Pelo menos, era esta a indicação deixada pelo pai. Mas teve uma outra ideia: ir de metro e aproveitar o dinheiro para comprar roupa nova. “Tudo o que tinha na mala era a farda da escola e algumas camisas de malha e calças que tinha herdado das minhas irmãs mais velhas. Como podia ir aos testes daquela forma?”, pensou. Apanhou o metro — nunca tinha visto tal meio de transporte, muito menos andado nele.

“Mas, quando tirei a mochila das costas para agarrar a carteira, ela tinha desaparecido”, conta. De mala aberta, percebeu rapidamente que tinha sido roubada dentro do metro. “As ruas estavam quentes e tinham mau cheio. Agachei-me sobre a mala e comecei a chorar”, recorda. Sem dinheiro nem documentos, conseguiu ligar para casa depois de uma mulher que passava lhe ter emprestado algumas moedas. Uma hora e um raspanete depois, chegou ao apartamento. Mais tarde comprou umas calças de ganga novas e uma camisa de malha branca. Usava-as em todos os castings e só as lavava ao fim de semana.

“Cheguei a questionar se queria mesmo continuar a viver”

Gisele é a primeira a admitir que o seu percurso como manequim também foi feito de más escolhas. Depois de uma temporada a viver em Tóquio, a manequim fixou-se em Nova Iorque. Embora nunca tenha adotado o estilo de vida de outras raparigas com quem convivia de perto, que incluía longas saídas à noite, álcool e drogas, as formas de atenuar um dia-a-dia frenético nem sempre foram saudáveis. Entre desfiles, provas, castings, sessões fotográficas e voos, Gisele revela que “dependia de estimulantes e calmantes para passar o dia”. “Café para me acordar de manhã. Cigarros para fazer pausas nas longas horas de trabalho [chegou a fumar um maço por dia] e criar um espaço para mim sem ninguém — estilistas, cabeleireiros, maquilhadores — a tocar-me. Bife, hambúrguer, batata frita, massa, piza, doces e qualquer coisa que me desse energia naquele momento. Vinho tinto para relaxar e ajudar a dormir”, conta.

Depois de um périplo pelas capitais da moda — Londres, Milão, Paris e Nova Iorque — era comum ficar doente. As ornadas de trabalho eram de horas a fio. “Era intenso”, desabafa. “Inevitavelmente, quando penso numa fase dos meus vinte e poucos anos, lembro-me de me sentir tão impotente, que cheguei a questionar se queria mesmo continuar a viver”, escreve. “Estava literalmente a matar-me”, remata.

“Sempre que via comida nos bastidores, enchia a carteira”

A vida nos bastidores nem sempre foi fácil, sobretudo quando ainda não era uma estrela internacionalmente conhecida. A certa altura, Gisele tornou-se conhecida por ser a rapariga que distribuía a comida que tirava de dentro da mala. Conta que bebeu álcool pela primeira vez aos 19 anos, um efeito tendo em conta que, como relata, o champanhe era ilimitado antes de um desfile. “Pouquíssimos estilistas ofereciam algo para comer às modelos, por isso, sempre que via comida nos bastidores, enchia a carteira”, recorda. Os episódios desconfortáveis e constrangedores não se ficaram pela questão da alimentação.

Olhando para os primeiros anos da sua carreira, Bündchen sabe muito bem onde é que a máquina errou e maltratou centenas de modelos como ela. Fala numa indústria cruel e na forma como muitos designers olhavam para as raparigas — eram cabides e, para alguns, era quase como se não fossem humanas. “Lembro-me de que, aos 15 anos, consegui um trabalho como modelo de provas, em que tinha de experimentar os potenciais looks para o desfile. Ficava lá em pé quase nua, só de cuecas, a tapar-me da melhor forma que podia com os braços cruzados sobre os seios enquanto alguém ia buscar as roupas. Às vezes demoravam muito tempo, deixavam-me a tremer. Ninguém pensava em trazer-me um roupão, nem que eu pudesse estar a sentir-me constrangida, vulnerável, ou com frio”, revela.

“Mais do que uma vez, descobri que alguém tinha trocado os meus sapatos”

A falta de solidariedade, a inveja e os esforços para prejudicar o próximo — com a ascensão na carreira de manequim, Bündchen provou também o gosto das investidas maldosas de quem a quis prejudicar. Fala da dificuldade em fazer amigos e do consequente sentimento de solidão, mas também num meio competitivo e cheio de inseguranças. “Mais do que uma vez cheguei a um desfile e descobri que alguém tinha trocado os meus sapatos por outros muito maiores ou, outras vezes, o meu salto simplesmente partia-se do nada no meio da passarelle […] ou as tiras das sandálias rebentavam-se […]”, relembra.

Também a saúde da manequim se ressente ainda hoje. Os deslocamentos dos ombros são recorrentes, bem como os problemas decorrentes de uma escoliose e de joelhos. Diz que tudo piorou graças aos saltos altos, à quantidade de metros percorridos em desfiles e às produções intermináveis. Recorda a sessão fotográfica que fez em 1998, no meio de icebergs, na Islândia. O frio era insuportável, contudo teve de posar com um vestido de alças.

“Naquele momento, a única resposta possível parecia ser saltar”

Em 2003, a pressão sobre Gisele Bündchen atingiu um novo patamar. Num pequeno avião a caminho da Costa Rica, a manequim teve o primeiro ataque de pânico. De regresso a Nova Iorque, o problema persistiu. “De repente, não me sentia à vontade para andar de elevador. Tinha a sensação de falta de ar […] O mesmo acontecia com túneis: nem pensar. Tinha recomeçado a viajar a trabalho mas já não queria entrar nos hotéis onde ia ficar hospedada. Cruzar o lobby sem janelas tornava respirar uma tarefa muito difícil […] Não conseguia entrar num estúdio de fotografia se não tivesse janelas. Apanhar o metro estava fora de questão”, escreve.

Com 23 anos e no auge da carreira, Gisele tinha um problema para resolver. Um dia, enquanto recebia uma massagem em casa, levantou-se subitamente e, enrolada na toalha, correu para o terraço. Começava a não tolerar estar no seu próprio apartamento. “Por fora, parecia que tinha tudo! Tinha assinado o maior contrato da indústria da moda com a Victoria’s Secret. Tinha pais e irmãs maravilhosos. Tinha bons amigos em Nova Iorque que eram como uma família. Mas, naquele momento, a única resposta possível parecia ser saltar”, conta. Gisele diz que se ouviu a si mesma. As melhoras chegaram nove meses após o primeiro ataque. A meditação e o yoga, bem como exercícios de postura e de respiração foi a tábua de salvação. Deixou de fumar, eliminou a fast food da dieta e cortou no açúcar — parte que se revelou especialmente difícil.

Gisele entre as manequins que pisaram o palco dos VH1 Fashion Awards, em 1999 © Scott Gries

“Comecei a chorar. Por nada no mundo ia desfilar sem a parte de cima”

Em 1998, Gisele dá o pontapé de saída na sua carreira internacional. Tinha acabado de fazer 18 anos, estava a passar uma temporada em Londres e a manequim ao estilo heroin chic ainda imperava. “Depois de três semanas e 43 castings, a maioria dos responsáveis por contratar as modelos para os desfiles mal olhava para mim”, recorda. Mas o vento começou a soprar na direção contrária, a partir do momento em que entrou no casting para um desfile de Alexander McQueen. Bündchen recorda o momento em que entrou numa sala onde o criador estava sentado num sofá. Pediu-lhe que calçasse uns saltos muito altos e que vestisse uma saia comprida travada. Desfilou e ouviu um “obrigado” no final. Dias depois, recebei um telefonema — estava no line-up do desfile da coleção primavera-verão 1999 do designer britânico.

No grande dia, chegou com um frio na barriga. Pentearam-lhe o cabelo para trás, colocaram-lhe uma peruca preta e colaram-lhe longas penas negras nas pestanas. De saltos altos e saia apertada, aguardou pela parte de cima. Após uma longa espera, decidiu perguntar. “Não há parte de cima”, responderam-lhe. “Comecei a chorar. Não tinha ideia do que fazer. Só pensava no quão dececionados e envergonhados ficariam os meus pais […] Por nada no mundo ia desfilar sem a parte de cima da roupa”, recorda. Pensou em fugir, enquanto as lágrimas ameaçavam fazer descolar as penas das pestanas. De repente, chega uma maquilhadora e começa a pintar-lhe um top branco sobre o corpo. Dos males o menor e, de cabeleira preta e no escuro da sala de desfiles, a pintura facilmente passaria por uma peça de roupa real.

“Eu já não conseguia nem mexer-me bem com a saia apertada e os saltos altos. Agora teria de entrar na passerelle com um top pintado no corpo e, ainda por cima, estava a chover?”, pensou no momento. A sensação era real — havia chuva artificial sobre a passerelle. A carreira internacional de Gisele descolou naquele dia, mas também nasceu a carapaça que passou a proteger a verdadeira Gisele do mundo que a rodeia. “Atravessei a passerelle a chorar, seminua, enquanto a chuva caía do teto”, resume.

“A Victoria’s Secret trar-me-ia segurança financeira pela primeira vez na vida”

A viragem do milénio foi o momento da consagração de Gisele Bündchen. Tinha apenas 19 anos quando a Victoria’s Secret lhe propôs um contrato de cinco. Pela mesma altura, a Vogue elegeu-a Modelo do Ano. Ainda hoje recorda as caras de Anna Wintour e Grace Coddington, diretora e diretora criativa da revista, respetivamente, quando a viram chegar com uma túnica hippie, umas calças de ganga largas e rasgadas e umas sandálias Birkenstock para receber o prémio. Mas as duas mulheres influentes não estranharam só a escolha da roupa — que depressa trataram de substituir. “Não havia uma mistura”, explica a manequim no livro. Depois de desfilar para grandes designers, a opção de se associar a uma marca tão comercial era, simplesmente, estranha. Ainda assim, Gisele avançou. “Trabalhar com a Victoria’s Secret trar-me-ia segurança financeira pela primeira vez na vida e um emprego estável durante cinco anos. Já não teria de fazer cem desfiles por ano”, recorda.

Passaram sete anos e Gisele tornou-se no rosto mais emblemático da marca norte-americana. O contrato estendeu-se por sete anos e, em 2006, chegou a proposta de renovação. Bündchen ficou hesitante. “Nos primeiros anos, sentia-me confortável em desfilar e posar em lingeriemas, com o passar do tempo, fui ficando cada vez menos à vontade em ser fotografada a desfilar pela passerelle a usar só um biquíni ou uma lingerie fio dental. Deem-me uma cauda, uma capa, umas asas — por favor, qualquer coisa para cobrir o meu rabo! Com o passar do tempo, fui me sentindo mais e mais desconfortável”, conta no livro.

Com um aperto no estômago, chegou ao dia da decisão sem a ter tomado. Precisava de uma confirmação e procurou-a no acaso. Dobrou dos pedaços de papel — num escreveu “sim”, no outro “não” — e colocou-os dentro de uma chávena. Fechou os olhos e tirou o primeiro que agarrou. A confirmação veio na forma de um “não”. Bündchen levou-o à letra e não renovou o contrato com a Victoria’s Secret.

“Não acho que este lado seja tão bom, Sr. Penn”

“De repente, muita gente queria trabalhar comigo”, escreve. De corpo estranho, ao qual o mundo da moda começou por oferecer resistência, Gisele passou a rapariga do momento. Mario Testino fotografou-a para a Vogue Paris, Patrick Demarchelier convidou-a a aparecer nas páginas da Harper’s Bazaar e Steven Meisel, mais do que um fotógrafo, foi, segundo a própria, um professor. Anna Wintour colocou-a na capa da Vogue. “O Regresso das Curvas” era o destaque da edição e Bündchen era o rosto e a silhueta de uma nova era. “[…] foi um momento crucial da minha carreira. Fui uma das modelos mais jovens a aparecer na capa da Vogue americana e dentro dessa edição também havia uma fotografia nua minha, tirada por Irving Penn”, recorda no livro.

O mestre da fotografia de moda tinha quase 80 anos, Gisele ainda não tinha 20. “Tirar a roupa não foi fácil para mim”, afirma. Só com luz natural e sem retoques, Penn fez-se acompanhar apenas de um assistente e da editora. O número de pessoas dentro do estúdio era invulgarmente reduzido, segundo conta a manequim, que refere também o facto de ter ficado imóvel e nua durante quase duas horas. “Não acho que este lado seja tão bom, Sr. Penn”, exclamou a certa altura, convencida de que o seu lado esquerdo a favorecia bem mais do que o direito. “Devagar, com a voz serena, ele disse-me que tudo e todos têm uma beleza única e própria — que todos os ângulos são lindos”, recorda.

Irving Penn convenceu-a, não só de que o seu lado direito também a favorecia, mas sobretudo de que não havia problema em se ser diferente. As singularidades de de Bündchen rapidamente se tornaram os seus maiores trunfos, a começar pela sua passada invulgar, que ficou conhecida como trote. Enquanto caminha na passerelle, levantava os joelhos e chutava o pé para a frente. “Calço o 37 e tenho um 1,80 metros de altura. Os saltos que as modelos usavam na passerelle eram muito mais altos do que os que eram vendidos nas lojas, tornando quase impossível, no meu caso, manter as pernas esticadas […] o meu caminhar era simplesmente uma forma de evitar cair”, esclarece.

Gisele com os pais, em outubro de 2004 © Evan Agostini/Getty Images

“Foi a economizar cada centavo que consegui comprar o meu primeiro apartamento em Nova Iorque”

Quando precisava de roupa, Gisele recorria a uma loja de roupa em segunda mão. O estilo relaxado, para não falar na quantidade de peças que tinha à disposição, fizeram com que gastasse pouco dinheiro em roupa, malas e sapatos. “Foi a economizar cada centavo que ganhava com o meu trabalho que consegui comprar o meu primeiro apartamento em Nova Iorque, na Beach Street, em Tribeca”, revela. Não tinha sobrado muito dinheiro, por isso pôs mãos à obra e tratou das reparações necessárias. “Lixei e envernizei o soalho e fiz o mesmo com quatro bancos brancos que encontrei numa venda de garagem na Houston Street […] decorei as outras divisões com móveis do Ikea. Para me lembrar o Brasil, comprei umas palmeiras em vasos e um peixinho”, continua. Remodelar a casa de banho demorou mais um pouco, mas a manequim não tem medo de admitir que passou seis meses a tomar banho no estúdio e na casa de amigos.

“Como carne duas vezes por mês e peixe uma vez por semana”

A carne pode fazer parte da ementa gaúcha, mas a certa altura, Gisele quis tornar-se vegetariana. A primeira tentativa durou quase um ano e meio. Os sinais de anemia falaram mais alto, as unhas ficaram muito frágeis e o médico aconselhou-a a reintroduzir a carne na alimentação. Anos depois, uma segunda tentativa, mas essa só durou dez meses. A anemia voltou e com ela a certeza de que não poderia banir a proteína animal da ementa. “[…] hoje aceito o facto de que uma dieta 100 por cento vegetariana não funciona para mim. Atualmente, como carne duas vezes por mês e peixe uma vez por semana”, conta.

“Quando estava grávida do Benny, resolvi aprender a pilotar helicópteros”

O insólito faz parte das revelações feitas no livro. Grávida do primeiro filho, Benny, Gisele resolveu aprender a pilotar helicópteros. “Aprendi a pilotar à noite e em más condições meteorológicas, a pousar o helicóptero numa área limitada e a comunicar com os controladores de tráfego aéreo na torre de comando”, conta. O teste final ficou adiado pelo risco que representava, ainda assim, Bündchen afirma ter continuado a pilotar a poucos dias de dar à luz.

Fonte: Observador

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