DE PONTA-CABEÇA: A ORIGEM

Na coluna DE PONTA-CABEÇA desta segunda-feira, Deborah Braga explica a origem desta coluna, fazendo uma REFLEXÃO sobre o certo, o errado e as verdades de cada um. Convido o leitor a ler, refletir e tirar as suas próprias conclusões.

De Ponta-Cabeça

Foto: desconhecido

O ‘De ponta-cabeça‘ surgiu com o intuito de tentar descomplicar a sua vida bagunçando um pouco os seus pensamentos. A ideia é que comecemos a ver a vida a partir de diferentes referenciais. Isso se chama se colocar no lugar do outro. Do outro que pensa diferente de você, do outro que age de forma diferente da sua, do outro que nasceu em um lugar diferente do lugar em que você nasceu, que foi educado de outra forma e influenciado por outras pessoas. Do outro que é diferente de você.

E que bom que temos “bolsominions” e “petralhas”. E, igualmente importantes, os neutros. Um mundo sem diversidade é um mundo apático, monótono, fadado à mesmice. Tudo começou com uma tábua de cortes. Quando mudei para a casa do meu namorado e vários outros aspectos da minha vida foram alterados de livre e espontânea pressão, passei a frequentar mais a cozinha e descobri a famosa tábua de cortes.

Mas, veja bem, essa não é uma tábua de cortes comum. Ela tem lados diferentes. Um lado tem bordas e o outro não tem. Para mim, a partir do momento em que fui apresentada à tábua até o dia da reflexão, era óbvio usar o lado que não tem bordas, afinal, depois de cortar, eu posso simplesmente, com o auxílio de uma faca, empurrar a comida para dentro da panela, facilitando um pouco mais o meu trabalho.

No dia da reflexão, meu namorado olhou para a tábua que eu usava e disse que estava de ponta-cabeça. E, na batalha do “eu que estou certo”, ele argumentou que era óbvio que a borda estava ali para evitar que as comidas rolassem e caíssem para fora da tábua. Pensando em cortar ovos, azeitonas e ervilhas (se ervilha se cortasse) ou em temperar uma carne, ele parecia estar correto em sua defesa.

Mas o seu argumento não anula o meu. Esse é o ponto. Não existe verdade absoluta. Certo e errado são mera ilusão. Claro que existe uma constituição que relata tudo o que você pode e o que não pode fazer. E se você infringir a Lei, você será penalizado. Mas não significa dizer que a Lei está certa ou que você está errado. Afinal, as leis foram criadas por indivíduos exatamente como você. Indivíduos com diferentes pontos de vista, que, juntos, chegaram a um consenso. Da mesma forma que eu e o meu namorado chegamos ao consenso de que a tábua de cortes pode ser usada dos dois lados.

O desentendimento em diálogos é tão comum porque cada um já tem uma verdade pré-definida dentro de si. Se fôssemos para uma discussão livres de pré-julgamentos, ouviríamos muito mais do que falaríamos, porque precisaríamos de tempo para compreender o real significado das palavras expelidas pela outra pessoa, em vez de somente compararmos essas palavras com os nossos conceitos. Viver outras perspectivas é uma tarefa desafiadora e, às vezes, dá realmente a impressão de estarmos de ponta-cabeça. Ou talvez seja só o mundo que esteja.

Autoria: Deborah Braga

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