ENTREVISTA: O DEPUTADO FEDERAL KIM KATAGUIRI EXPLICA O PORQUÊ DA SUA CANDIDATURA À PRESIDÊNCIA DA CAMARA

Para quem ainda não conhece, Kim Kataguiri, ele é o deputado federal eleito mais jovem da Câmara dos Deputados, pelo PSL e já é candidato a Presidente da Câmara nessa gestão. Começou sua militância política no MBL, Movimento Brasil Livre que saiu para as ruas em 2013. Leia a entrevista e conheça essa figura que vai fazer história na política brasileira.

‘O problema do governo Bolsonaro é a comunicação’, diz Kim Kataguiri

O senhor foi eleito para um cargo público pela primeira vez em outubro passado. Levando em consideração sua inexperiência no Congresso, não considera prematuro lançar-se já no primeiro ano de mandato à presidência da Câmara dos Deputados?

Acredito que não, acompanho o processo legislativo há quatro anos em Brasília. Tenho proposto, inclusive, para aqueles (candidatos) que alegam (minha) inexperiência um debate público sobre o processo legislativo, sobre o regimento interno da Câmara, sobre propostas a serem pautadas para justamente demonstrar o melhor preparo de cada um. Infelizmente, nenhum deles aceitou o meu convite para que haja um debate público com os candidatos, como acontece para os cargos majoritários.

O presidente do STF, ministro Dias Toffoli, rejeitou seu pedido para que a votação na Câmara fosse de forma aberta. Isso favorece quem nessa disputa pela presidência da Câmara?

Favorece as candidaturas de sempre, principalmente do Fábio Ramalho (MDB-MG) e do Rodrigo Maia (DEM-RJ).

O PSL, partido do presidente Bolsonaro, decidiu apoiar o seu colega de legenda, Rodrigo Maia, na eleição à presidência da Casa. Em que medida essa aliança enfraquece a sua candidatura?

Em boa medida, porque a maior parte dos parlamentares do PSL vai acabar votando no Rodrigo Maia. Não sei se esse apoio é definitivo, o presidente (Bolsonaro) acenou para outros candidatos, como o próprio Fábio Ramalho. Sei que existem parlamentares do PSL que não vão votar com a liderança partidária, não é um apoio 100% fechado, como na maior parte dos outros partidos. Existem parlamentares incomodados com esse apoio do governo, mas, de qualquer maneira, não deixa de ser relevante e o principal apoio para vencer a presidência da Casa.

Com quem o senhor tem dialogado para conseguir apoio?

Tenho conversado individualmente com parlamentares do PSDB, do MDB, do PPS, do Partido Novo. Não faço negociação de bancada, minha ideia é trabalhar individualmente e não fazer nada no atacado. Quero apostar nos diálogos individuais, aglutinando forças, inclusive, com outros candidatos, como o Alceu (Moreira), do MDB, o JHC (João Henrique Caldas), do PSB, e demonstrar força para que o governo tenha consciência de que a minha candidatura também é viável.

O PT tem a maior bancada da Câmara, com 56 deputados. Como será sua relação com o Partido dos Trabalhadores?

Tanto como parlamentar quanto se for eleito presidente da Câmara, vou manter uma interlocução. Existe o princípio da proporcionalidade da Casa, que garante espaço em comissões para as maiores bancadas, e o PT tem uma das maiores, mas, evidentemente, não ficaria com as principais. O maior bloco hoje é do PSL. Aliás, a própria bancada do PSL pensa em alinhar-se em um bloco e já tende a ter a maior bancada na janela partidária que vai se abrir em razão dos partidos que não bateram a cláusula de barreira. Vamos ter muita migração para o PSL. De qualquer maneira, a participação em comissões do PT e mesmo do bloco do PDT, que é até maior que o bloco do PT, se daria de maneira a contentar essa proporcionalidade. Eventualmente, em projetos que haja congruência, que são raros, mas existem, dá para pensar em ter a assinatura deles para abertura de comissões e discussões de projetos.

O senhor já declarou que a reforma da Previdência é uma de suas prioridades no Congresso. Qual é o modelo de reforma defendido pelo senhor?

É a reforma proposta pelo Paulo Tarso e pelo Armínio Fraga que, basicamente, mistura um regime de capitalização com a repartição que a gente tem hoje, geracional, mas com um teto máximo para que os trabalhadores da iniciativa privada não financiem as aposentadorias do setor público, como acontece hoje, para que a gente não só solucione o déficit, mas também garanta para as futuras gerações um sistema previdenciário justo e que a gente nunca mais tenha que fazer uma reforma previdenciária. Acredito que essa reforma seja bastante próxima ao modelo do ministro Paulo Guedes.

Sua atuação no Congresso será pautada por quais objetivos centrais?

Minha prioridade é pautar a reforma da Previdência, que é o principal problema do país. Não conseguimos começar a pensar em soluções para educação, saúde, segurança pública ou mobilidade urbana se não falarmos antes de cobrir o rombo nos cofres públicos para que tenhamos dinheiro para solucionar os outros problemas. Pretendo fazer com que a gente volte a gerar emprego e renda, tenha equilíbrio fiscal – daí minha insistência na questão previdenciária. O segundo ponto é o combate aos privilégios, inclusive na própria Previdência. Hoje, o mais pobre, via imposto, financia o mais rico. Os impostos penalizam as camadas mais pobres.

Já nos primeiros dias de gestão, o governo Bolsonaro recuou em vários assuntos, houve muito disse que disse e vai e volta em decisões importantes. Isso demonstra falta de planejamento da cúpula bolsonarista?

O problema do governo é a comunicação. Não há um acerto entre ministros para saber quem tem a competência ou a jurisdição para falar sobre determinada área. Não existe uma conversa entre a equipe para acertar quais são as posições sobre os principais temas, e isso acaba gerando muito ruído e prejudicando a pauta legislativa. Aos poucos, numa velocidade menor do que a gente gostaria, mas ainda assim acontecendo, o governo deve corrigir, mas, ainda assim, é um erro grave, principalmente para começo de mandato.

Bolsonaro se elegeu dizendo que iria romper com velhas práticas na aposta. O que o senhor achou da nomeação do filho do vice-presidente, general Hamilton Mourão, para uma assessoria especial do Banco do Brasil?

Inadequada. Acho válida a argumentação de que ele trabalha lá há 19 anos, tem capacidade técnica para isso, mas agora o Mourão é vice-presidente da República, e mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta também. Não é o momento, e isso cria um desgaste desnecessário logo neste início de mandato.

No discurso de posse, Bolsonaro afirmou que é preciso libertar o Brasil do socialismo e do politicamente correto. Em um país com a miséria crescente e quase 13 milhões de desempregados, essas são pautas relevantes?

Claro, quando ele fala sobre socialismo, ele fala, principalmente, sobre a questão econômica. É a questão econômica que leva a 13 milhões de desempregados. Querendo ou não, uma das pautas principais dele de campanha foi o combate ao politicamente correto, sendo assim, nada mais coerente do que ele seguir isso enquanto governante. Para isso, não precisa de nenhum esforço legislativo, do Poder Executivo, é mais uma postura do presidente e não acho que haja desgaste ou tira prioridade de outros temas.

Também em seu discurso, o presidente afirmou que a bandeira brasileira “só será vermelha se for preciso nosso sangue para mantê-la verde e amarela”. Esse tipo de declaração não cria um clima de guerra contra a esquerda?

Essa declaração é uma exceção em relação a outras que ele tem adotado. Acho que acirra, sim, os ânimos. Não acho que é essa a ideia (que Bolsonaro quer passar). De qualquer maneira, a linha geral (do governo) sendo seguida é outra.

Antes de ser eleito, Bolsonaro chamou os imigrantes e refugiados de “escória do mundo”. Recentemente, o governo abandonou o pacto da ONU para migração. Sendo neto de japoneses imigrantes, como o senhor se sentiu?

Não vi essa declaração, também não vi a notícia sobre a saída do pacto de migração, então não me sinto preparado para opinar.

Fonte: va.newsrepublic.net

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