CULTURA: SÉRIE 60 ANOS DE BOSSA NOVA – 3ª REPORTAGEM

No terceiro episódio da homenagem aos 60 anos da Bossa Nova o último encontro de Tom Jobim e João Gilberto, em 1992,  depois de 30 anos da última apresentação.

O reconhecimento da bossa nova como marco cultural brasileiro

No ano de 1992, trinta anos depois, Tom Jobim e João Gilberto voltaram a se encontrar para uma apresentação. O último show dos fundadores da bossa nova, realizado no Teatro Municipal do Rio, foi marcado pela presença de músicos de quase todos os estilos, que os consagraram como “mestres da nossa música”. Confira na penúltima reportagem sobre os sessenta anos da Bossa Nova.

João Gilberto e Tom Jobim participaram de um show juntos pela última vez em 1992, no Rio. Foto: Reprodução (Crédito: )

João Gilberto e Tom Jobim participaram de um show juntos pela última vez em 1992, no Rio.

Foto: Reprodução

POR GABRIEL SABOIA

O Teatro Municipal do Rio foi palco de um encontro histórico em 1992: três décadas depois, Tom Jobim e João Gilberto voltavam a fazer uma apresentação juntos, em homenagem ao poeta Vinícius de Moraes, morto em 1980. A tensão que precedia o show era justificável. Já recluso e com muitas manias, João saía de casa para uma rara apresentação. Por isso, era grande o temor em torno de uma possível desistência do violonista baiano. Na imprensa, também pipocavam boatos sobre uma possível briga entre os dois músicos. Afinal, há quantos anos os criadores da bossa nova não se falavam? Será que eles ensaiariam para esse show? Perguntas que eles nunca se preocuparam em responder antes daquela apresentação arrebatadora.

“Existia uma admiração, de um para o outro, mas ao mesmo tempo uma distância. E, em meio a isso, as pessoas queriam criar uma polêmica que não existia. Um show como esse, no qual os artistas reescrevem uma história de trinta anos, não é exatamente natural, ainda mais quando se trata de uma celebração importante. Foi emocionante rever os dois ‘nos trinques’, incrível. Era impressionante como o João escrevia em acordes e o Tom respondia em notas. Havia um sentimento, digamos assim, muito chique”, recorda Miúcha.

As lembranças da cantora Miúcha sobre aquela noite vêm da fila de gargarejo do espetáculo. Ali, representantes de vários estilos musicais reverenciavam a última apresentação da dupla, até Tom Jobim morrer, vítima de insuficiência cardíaca, em 1994. A bossa nova era finalmente reconhecida, como um marco cultural brasileiro. Não foram poucos os artistas que, embora tenham feito carreiras em outros estilos, tenham sido diretamente influenciados pela filosofia do “banquinho e violão”. A cantora Baby do Brasil conta que todo o som feito pelos Novos Baianos, por exemplo, traz a herança da Bossa Nova.

“Eu conheci a linha melódica da Bossa Nova ainda bem pequena, enquanto eu ficava deitada no tapete e ouvia a vitrola da minha mãe. Eu ficava com o ouvido bem próximo ao aparelho e me impressionava o quanto me sentia em paz com aquele som e, ao mesmo tempo me dava uma alegria musical muito grande. A bossa nova é uma influência nos meus acordes, como eu componho e isso é uma bênção, porque o ritmo está num nível muito alto da musicalidade no mundo”, afirma.

Pode parecer estranho, mas nem mesmo a Jovem Guarda teria ganhado o vulto que ganhou não fossem aqueles encontros musicais na casa da cantora Nara Leão, lá nos anos 1950. É o que conta o jornalista Nelson Motta, que revela um episódio marcante, mas pouco conhecido da nossa música.

“Eles chegaram a ser levados nas festinhas da bossa nova, mas o Roberto e o Erasmo foram absolutamente rejeitados pela turma, já que eram considerados ‘cafonas’ e ‘pobres’ pela galera da Zona Sul. Eles até tentaram entrar para o grupo, mas como não deu certo, o Tim Maia desistiu da bossa nova e foi embora para os Estados Unidos. Quando ele voltou, veio quebrando tudo, cantando influenciado pelo funk e pelo soul. Já o Roberto partiu para uma linha mais ‘jovem’, que viria a desaguar na Jovem Guarda. Mas tudo isso só aconteceu pela frustração deles em imitar o João Gilberto. Eu conheci o Roberto numa dessas festinhas cantando João”, se diverte.

Recordações e histórias que se tornam cada vez mais raras entre os apaixonados pela bossa nova. Mas, enquanto João Gilberto não sai da sua reclusão e se vê às voltas com polêmicas familiares, fãs do mundo inteiro seguem cantando, sessenta anos depois, sob aquela batida inventada por ele. É disso que vamos falar amanhã, de vários cantos do planeta, no último episódio da série.

Fonte: CBN

Deixe uma resposta

Fechar Menu