CULTURA: SÉRIE 60 ANOS DE BOSSA NOVA – 1ª REPORTAGEM

Na nossa sessão CULTURAL e MUSICAL desta quinta-feira vou reproduzir aqui uma série especial de reportagens, produzida pela CBN em homenagem a Bossa Nova que acaba de completar 60 anos. O novo ritmo ou gênero musical que surgiu do samba e revolucionou a música popular brasileira.

Há 60 anos, o samba ganhava uma ‘bossa nova’

Especialistas e fãs consideram a gravação da música ‘Chega de saudade’, feita por João Gilberto em 10 julho de 1958, como marco inicial da Bossa Nova. A CBN começa nesta segunda-feira uma série de reportagens sobre os 60 anos do ritmo. E no primeiro episódio da série, o repórter Gabriel Sabóia conta como e por que o encontro entre Tom, Vinícius e João Gilberto revolucionou a música mundial tocada até ali.

Capa do disco 'Chega de Saudade', do músico João Gilberto. Foto: Reprodução (Crédito: )

Capa do disco ‘Chega de Saudade’, do músico João Gilberto. Foto: Reprodução

Por Gabriel Saboia

Uma reviravolta na música brasileira descrita em versos, acordes e uma batida inconfundível. Há 60 anos, um grupo de jovens da Zona Sul carioca dava uma “bossa nova” ao samba inventado no subúrbio. Com uma nova roupagem, o ritmo surgido nas senzalas ganhava o mundo e a música brasileira era, enfim, reconhecida no exterior. Mas tudo começou bem antes de Tom e Vinícius cantarem a beleza da Garota de Ipanema, sob a levada inventada por João Gilberto. Pra entender, é necessário voltar aos anos 1950, quando o samba já havia arrebatado a classe média e se tornado sucesso nas boates da então capital federal. Eram os vozeirões da Era do Rádio dominavam a cena musical da época. Até que um grupo de músicos do Beco das Garrafas – o principal “point” da boemia da época – se encantasse com o jazz americano, passando a fazer um som com uma cadência diferente. Eram nomes como os pianistas Dick Farney e Lúcio Alves, que serviam como influência pros encontros musicais na casa de uma jovem moradora de Copacabana chamada Nara Leão. Ali, estava plantada a semente: o jovem Tom Jobim tocava os seus primeiros acordes e iniciava uma parceria de copo e de vida com um poeta chamado Vinícius de Moraes. Momentos inesquecíveis que não saem da memória do pianista João Donato, um dos poucos artistas ainda vivos a terem participado desses encontros.

“A gente se encontrava todas as noites para trocar ideias e ouvir música. E ali foi crescendo esse tipo de música e movimento. Diferente daquele pessimismo do samba-canção até então, a bossa veio como uma música brasileira de forma mais leve e suave”, disse Donato.

Foi nesse contexto que um violonista saiu de Juazeiro, na Bahia, disposto a mostrar o seu talento. João Gilberto chegava ao Rio com um jeito único de tocar samba, no qual cada acorde era milimetricamente percussionado e coordenado com um canto que, de tão baixo, mais parecia um sussurro. As grandes orquestras ou baterias de escolas de samba pareciam perfeitamente substituíveis por um banquinho e um violão. Mais do que isso: o minimalismo musical encorajava artistas sem muita potência vocal a escreverem os seus nomes na história da nossa música. Apresentado a João Gilberto por alguns amigos, o compositor Roberto Menescal conta que identificou logo na tal “batida da bossa nova” um jeito novo de tocar samba e não teve dúvidas ao apresentar João a Tom e Vinícius. Um encontro que seria lembrado sessenta anos depois.

“O pessoal do morro sabia tocar samba melhor do que a gente. Mas o João Gilberto teve uma percepção muito simples: ‘o samba tem agogô, reco-reco e tamborim. A gente pode pegar o tamborim, por exemplo, e transferir a batida para o violão [imita um som da batida de um tamborim]’. Aí vem a tal batidinha da bossa nova”, lembrou Menescal.

A batida trazida pelo violonista baiano era, de fato, a cara da boemia da Zona Sul daquela época e parecia ter sido feita sob medida pra letras mais leves, que não falassem apenas de amores perdidos, como nos sambas-canções e boleros. Dono de uma personalidade excêntrica e um perfeccionista assumido, João escreveria o seu nome de vez na música brasileira ao gravar a música Chega de Saudade, em 1958. A composição de Tom e Vinícius sintetizaria aquele movimento já crescente, mas que ganhava nome e sua voz definitiva. O jornalista Ruy Castro, autor do livro “Chega de Saudade – a história da Bossa Nova” fala sobre o impacto dessa gravação:

“João Gilberto é a soma de dez anos de experiências, modernizações e tentativas de pessoas na música brasileira. Primeiro que a bossa nova aconteceria de qualquer maneira. Não é que a música precisasse de modernização, mas já vinha se modernizando bem antes. E o João Gilberto era um grande conhecedor de samba”.

Dali em diante, foi como se mais nada fosse feito na música brasileira sem algum grau de influência daquele grupo de jovens que fazia versos entre os botequins e praias da Zona Sul do Rio. A poesia feita nas mesas dos bares ainda homenagearia uma garota que caminhava por Ipanema num “doce balanço caminho do mar” e, assim, ganharia o mundo. A bossa nova seria reverenciada pelos jazzistas americanos e os seus expoentes se tornariam os nossos artistas mais famosos no exterior. Mas isso é assunto pra reportagem desta terça-feira.

Fonte: CBN

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